Disseram-me, para não
me confundir com meus pensamentos. Essa
frase me deixou um incômodo como unhas arranhando a lousa. Ela supõe que não
somos o que pensamos; contradição com o nossos hábito ancestral de se ser pensando, se ser racional, se ser
consciente e discursivo. Isso que é ser humano e não animal; uma percepção
autopoiética que delimita em uma caixa muito especifica a totalidade de nossa
ontologia. O corpo é assim visto como
uma ancestralidade, uma coisa ultrapassada e inferior à esplendorosa mente
racional, que em breve, será substituído ou completamente controlado por
processos gestados nela. O possível Eu-que-não-é-pensamento é descartado nessa
açougaria civilizacional; quiçá subsiste em um inconsciente clinicamente definido.
O pensamento e o ser-pensando impõem a cultura sobre a vida orgânica; inscreve
a ferro e fogo na carne a marca da identidade, da palavra ( veículo do
pensamento), da casta, da família, do gênero.
Anterior ao
pensamento e a cultura e a sua castração, há, talvez, um Eu que subsista dentro
do Eu–que-se-diz-Eu; um Eu intransitivo que não precisa de discursos para ser
completo. Eu sem adjetivos, verbo
pretéritos e futuros, complementos nominais, nacionais e de classe. Entretanto, acho que aqui, não caberia mais o
nome Eu, pois Eu é ainda nome. Esse ser anterior, não tem sobre si palavras que
o definam, voz que se autoproclame, história a que se reporte. O Eu é uma contingência cultural, efeito de
superfície, que não resiste nas terras mais profundas onde os solos são
pantanosos e não há raiz fixa.
Penso , que “eu” ,
sem Eu ( discursivo, cultural,
social), sou apenas corpo. Por detrás
das identificações, categorias, gostos, sujeitos, existe o animal espontâneo,
animal humano que é completo em si mesmo. A civilização corta nele contornos
previsíveis, modos de ver, línguas, identidades de todo tipo; e o que é jogado
fora,partes animais, retornam sempre como falta. Dentro de nós, para além das
preocupações e massas de cultura, em um lugar mais verdadeiro e tão secreto,
ruge ainda um corpo não sujeitado, um corpo subsistente na sua própria pele,
não marcado de símbolos, conceitos, e idéias.
É um corpo completo em si, irracional, espontâneo, como as naturezas animais
que possuem na sua invonluntariedade os caminhos perfeitos para o seu estar no
mundo. Esse corpo é o Éden perdido, o
paraíso por vir. Ele não pensa, ele é ; pertence ao simples acontecer das
coisas. É a tranquilidade de ser
entregar aos fluxos não-humanos, de se integrar com o cosmo caótico que é a
natureza, não dizendo arrogante que “Sou eu”,
mas ao contrário, nada dizendo, nada identificando, nada
conceituando. É ser ,simplesmente,
corpo.
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