terça-feira, 21 de maio de 2013

Do Corpo


Disseram-me, para não me confundir com meus pensamentos.  Essa frase me deixou um incômodo como unhas arranhando a lousa. Ela supõe que não somos o que pensamos; contradição com o nossos hábito ancestral de se ser pensando, se ser racional, se ser consciente e discursivo. Isso que é ser humano e não animal; uma percepção autopoiética que delimita em uma caixa muito especifica a totalidade de nossa ontologia.  O corpo é assim visto como uma ancestralidade, uma coisa ultrapassada e inferior à esplendorosa mente racional, que em breve, será substituído ou completamente controlado por processos gestados nela. O possível Eu-que-não-é-pensamento é descartado nessa açougaria civilizacional; quiçá subsiste em um inconsciente clinicamente definido. O pensamento e o ser-pensando impõem a cultura sobre a vida orgânica; inscreve a ferro e fogo na carne a marca da identidade, da palavra ( veículo do pensamento), da casta, da família, do gênero.
               Anterior ao pensamento e a cultura e a sua castração, há, talvez, um Eu que subsista dentro do Eu–que-se-diz-Eu; um Eu intransitivo que não precisa de discursos para ser completo. Eu sem adjetivos, verbo pretéritos e futuros, complementos nominais, nacionais e de classe.  Entretanto, acho que aqui, não caberia mais o nome Eu, pois Eu é ainda nome. Esse ser anterior, não tem sobre si palavras que o definam, voz que se autoproclame, história a que se reporte.  O Eu é uma contingência cultural, efeito de superfície, que não resiste nas terras mais profundas onde os solos são pantanosos e não há raiz fixa.
            Penso , que “eu” ,  sem  Eu ( discursivo, cultural, social), sou apenas corpo.  Por detrás das identificações, categorias, gostos, sujeitos, existe o animal espontâneo, animal humano que é completo em si mesmo. A civilização corta nele contornos previsíveis, modos de ver, línguas, identidades de todo tipo; e o que é jogado fora,partes animais, retornam sempre como falta. Dentro de nós, para além das preocupações e massas de cultura, em um lugar mais verdadeiro e tão secreto, ruge ainda um corpo não sujeitado, um corpo subsistente na sua própria pele, não marcado de símbolos, conceitos, e idéias.  É um corpo completo em si, irracional, espontâneo, como as naturezas animais que possuem na sua invonluntariedade os caminhos perfeitos para o seu estar no mundo.  Esse corpo é o Éden perdido, o paraíso por vir. Ele não pensa, ele é ; pertence ao simples acontecer das coisas.  É a tranquilidade de ser entregar aos fluxos não-humanos, de se integrar com o cosmo caótico que é a natureza, não dizendo arrogante que “Sou eu”,  mas ao contrário, nada dizendo, nada identificando, nada conceituando.  É ser ,simplesmente, corpo.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

X - O Funk enquanto vanguarda


 O Funk enquanto vanguarda.

            Humildemente acredito que o funk seja um estilo de música particularmente detestável, canto desafinado por excelência , um martelar constantes de sons e cacofonias repetitivas. Enfim, à parte de meus preconceitos, eu faço uma pequena colocação( quiçá uma advertência!) : o que se pensa e se diz sobre o funk hoje em dia é o mesmo que um dia foi dito da MPB e do samba. A elite pseudo-intelecutal pequeno burguesa( na qual me incluo e presumo que o leitor também) no inicio do século passado marginalizava o samba, como no Norte marginalizaram o rap e também o jazz.
Agora, marginaliza-se o funk. Devemos nos ater ás devidas proporções, pois se no caso do samba primeiro se agradou os intelectuais ( Semana de Arte moderna de 1922),  com o funk, acontece o contrário. O Mercado aliado a certa benevolência de esquerda( também burguesa) fez do funk um produto vendável e multiplicável em meio à alienação adolescente da classe média e ligeiramente alta, mantendo-se indigesto aos gostos daqueles que se presumem( e são presumidos) pensantes. O que é lamentável, que pela aliança nefasta com o Mercado e a classe média, qualquer elemento interessante que povoava o funk em seu inicio,se perdeu em proibidões.  Já com o samba, muito foi preservado e o que se deteriorou em excesso, felizmente recebeu o nome de pagode. 
Pelo que foi dito, podemos perceber que os dois movimentos tendem ao mesmo ponto, apesar das diferentes superfícies sociais de contágio; assim, não se surpreendam se um dia Valesca tocar no Municipal, ou se Catra for considerado o Cartola da década de 2000.  As mesmas elites da cultura, que hoje torcem o nariz, estarão requebrando até o chão em vernissages sofisticadas, em bailes no Palace, e shows no Pão de Açúcar. Quanto a isso não cabe nenhum julgamento; cabe apenas uma pequena risada.